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Quarta-feira, 3 de Maio de 2017

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Blimunda chorava depois de se masturbar. Afinal, o amor não era suficiente. Baltasar não conseguia satisfazer a sua amante. O sofrimento dela por não sentir prazer com o marido ocupava-lhe o pensamento; se não era com o marido, era com imagens fulgurosas do Padre Bartolomeu encorpado que lhe vinham à cabeça.

Blimunda pensava em terminar com a sua vida. A desonra de ter quebrado a fidelidade com Baltasar e o voto de castidade do padre eram razões suficientes para se mutilar. Ao final das contas, ela não era nada sem a opinião dos outros. Já nada valeria a pena – o seu coração virara pedra.

Longe da aldeia, escondidos uma pequena gruta em Montejunto, escondidos do Zé Povinho; Padre Bartolomeu, desolado por trair o amigo, também quer pôr um ponto final à sua vida. Sente-se vazio, sem mais nada para dar, sem ideais.

Bartolomeu sentia preocupação, claro, com facto de Blimunda estar saturada da vida, sem tesão, só reconfortada com o inútil “amor”. Resolveu mostrar-lhe uma estranha geringonça; ela fita-o mas sem perceber do que se tratava.

“Apresento-te a ‘passarola’. Acho que é melhor a usares antes de te matares. Sabes, não hás-de ser a primeira, ou a segunda, ou a terceira: neste nosso Portugal, milhares de mulheres como tu alcoviteiras queriam ser, pelo dinheiro não mas sim pelo prazer; muitas como tu sentiam em vagina alheia excitação como nenhum pénis lhes deu. Este nosso Portugal não é p’ra nós. É opressor. É escuro. Construí esta máquina, Blimunda, a que apelido de ‘passarola’, com a ajuda de deus nosso senhor todo-poderoso, não aquele que conhecemos, mas aquele que liberta realmente as pessoas. A ‘passarola’ só funciona com vontades. Mas na realidade, só funciona com a vontade de foder. Tens que deixar que ela te sinta molhada, excitada, liberta de todos os estigmas que te reprimem. Acredita que te vais sentir viva pela primeira vez em anos. Construí-a para ti, para que não sintas essa angústia depois do prazer, porque na realidade deus não haveria de inventar o acto sexual sem pressupor o prazer que dá. Mereces, tendo em conta a vida de cão que levas, a tratar de famílias que nada te dão, a tratar de um gajo que nem tesão te dá. A meu ver, a História é feita por ti, meu bem. Não é por el-rei D. João nem por D. Sebastião. É feita pelo povo que priva a sua própria vida por Portugal. Conjuga a sua parte inferior no teu rosado cono, afastando os lábios para fora. A antena da ‘passarola’ servirá como um pénis que te penetrará como nunca, vibrando, lá está, com vontades. A sua parte superior aconchegará o teu clítoris. Compilando isto tudo, terás todo o prazer que já alguma vez imaginaste, todo o prazer que Baltasar não te deu.”

Bem dito, bem feito. Blimunda já nem pensava, só sentia tesão com tal descrição de Bartolomeu. Teve sete orgasmos, a Blimunda; à sétima vez, veio-se com a sua morte.


publicado por deolhospostos às 17:52
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